[Pequeno diário de viagem] Circuito de Autores – Arte da Palavra 1/3
Sobre o Arte da Palavra em Cuiabá-MT
Há sempre muito o que se elaborar após deslocamentos espaço-temporais. Mas os dias se passam e se você não os captura logo com palavras, o que sobra é experiência inefável, que escapa à linguagem formal.
Desde cedo, fui apegada a registros. Não por acaso, minha literatura segue um padrão memorial, que nomeia e documenta na intenção de proteger, mas também compartilhar. Nos últimos anos, contudo, a memória sensorial tem me bastado mais do que a escrita. Não por acaso, abandonei o uso de agendas. Um planner de compromissos já me contempla no dia a dia.
Sinto que ainda se trata de um certo efeito colateral pós-pandemia, que afetou profundamente minha disposição para os afazeres de antes. Ainda assim, algumas vivências me cobram registro, como uma voz interior que diz "não deixe de escrever sobre isso, pois há algo em você que tem o que dizer a respeito".
Na véspera de um novo embarque, finalmente publico o texto que fui tecendo nas semanas após o retorno do centro-oeste brasileiro, nas asas do Arte da Palavra, promovido pela Rede Sesc de Leituras. Viver o Circuito de Autores em Cuiabá-MT certamente é um desses acontecimentos fundantes da escrita, que ecoa sob a urgência da intensidade perecível daquilo que não quer desvanecer. A vida de escritor ainda é vista de longe como algo fabuloso, abençoado. Enquanto na prática é fruto de uma necessidade estritamente humana por expressão e conexão. De complexo manuseio diário para conciliar com a vida cotidiana de necessidades tão ou mais urgentes quanto. Não me deslumbra, ainda somos apenas humanos tateando formas de existir. E a escrita é também uma das nossas formas de experimentar o mundo, como diria a pequena Harriet, a espiã.
Quando surge a possibilidade de viajar graças ao ofício devotado à palavra, o portal que se abre, contudo, é, de fato, da ordem das coisas extraordinárias, que habitam o campo do belo. Embora só se materializem com recursos que quase sempre nós, escritores independentes de tiragens limitadas e parco alcance local, não acessamos. Por isso, circular por três estados brasileiros com o apoio material do Sesc iluminou o meu 2026 tanto enquanto honra quanto como imperdível oportunidade, afinal são 20 anos de caminho percorrido na cena literária maranhense, um marco pessoal celebrado pelo reconhecimento da curadoria nacional do SESC. Começando pela experiência inédita em Cuiabá-MT.
Na linguagem científica, a capital mato-grossense abriga o marco geodésico da América Latina, o que em poesia significa ser o coração do continente sul-americano. E de coração, acho que entendo. Não raro, é com ele que escrevo.
Quando chego em uma cidade nova, é sempre a origem de seu batimento cardíaco que desejo alcançar, ainda que o tempo escasso só permita vislumbrar breves compassos. É aí que recorro aos museus. E o de História Natural foi excelente ponto de batida. Sediado em uma casa antiga preservada em um sítio arqueológico às margens do Rio Cuiabá, o Museu de História Natural de Mato Grosso abriga objetos, artefatos e achados arqueológicos que contam as origens do estado.
De população predominantemente indígena, sua artesania se destaca como ceramista. Após percorrer milhares de anos e eras geológicas entre duas salas, me deparei com a contemporaneidade da Exposição Casulos, concebida a partir da ideia de cocriação em uma argila manipulada tanto pela artista e pesquisadora Cândida Ferreira quanto pela interação com entidades bióticas (vespas, cupins, passarinhos etc.). O resultado são peças que remetem ao lar primordial, onde várias formas de vida buscam abrigo.
Há mais de 2.600 km de casa, diante de uma experiência completamente nova em território desconhecido, reencontrei o eixo, remexido por 10h em trânsito entre aeroportos e conexões insones, naquela pequena sala de exposição tão poética quanto precisa.
Tudo isso pra dizer que a viagem pelo Arte da Palavra é um experiência imensa, que se pretende culminante nos encontros com o público em bibliotecas e auditórios das cidades visitadas, mas acontece antes, durante e depois as conversas programadas. Porque a viagem inteira é mediada pela palavra literária que pulsa em nós e nos faz artífices da linguagem escrita que se inscreve pelos sentidos.
Já no histórico Liceu Cuiabano, para as duas sessões de debate com estudantes do ensino médio, falamos muito de memória graças à mediação da então analista de cultura Juliana Graziela e às intervenções da Prof.ª Cristiana Vasconcelos (História), docente articuladora de fascinante domínio educomunicativo e perspicaz percepção do cerne dos diálogos.
Ao lado da inestimável Ana Cláudia Trigueiro, escritora potiguar com quem viajo pelo circuito e desde o primeiro contato conquistou em mim um posto como amiga de infância tamanha amabilidade mútua, contamos nossas histórias de vida com a palavra para duas turmas de adolescentes do Ensino Médio. Ana, exímia contadora de histórias, com uma profícua produção voltada ao público juvenil e jovem adulto. Eu, com minha coesa produção em decenal transformação de linguagem e interesse temático. Em comum, vozes narradoras de experiências marcadas por matérias-primas que dão forma à identidade.
No intervalo do almoço, provamos a culinária do centro-oeste, de tempero e ingredientes novos para o nosso paladar nordestino. Apreciei especialmente a textura cremosa da versão cuiabana do arroz Maria Isabel e o doce feito de bocaiúva, fruta regional. No mesmo centro cultural do restaurante, visitamos o Aquário Municipal, com seu incrível acervo vivo de espécies aquáticas dos três biomas que compõem a paisagem estadual (pantanal, cerrado e floresta amazônica).
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| Culinária regional marcada por pratos preparados com peixe de água doce acompanhados de arroz Maria Isabel e farofa de banana. Na sobremesa, doces de frutas regionais como bocaiúva. |
Já no fim da viagem, um entardecer no Sesc Arsenal, em bonita conversa com Malu, bibliotecária da unidade, divertida e preciosa com suas observações sensíveis, críticas e confessionais sobre a vida entre livros.
Soubemos, por ela, que um casal de araras habita o jardim do Sesc Arsenal. Mais cedo, no estacionamento do Liceu Cuiabano, eu havia deixado a criança que existe em mim se manifestar espontaneamente diante do alumbramento com o sobrevoo de duas imponentes araras em pleno espaço urbano, paralisada na contemplação do pouso de uma delas no topo de uma palmeira oca, na calçada do Liceu.
Amanhã, 14/07, embarco para a segunda edição do circuito, na cidade sergipana de Itabaiana. No roteiro, conexões aéreas que me permitirão sobrevoar Salvador, estadia em Aracaju com expectativa de praia e oceanário, conversa em Itabaiana e todo um arsenal de experiências a descobrir nessa bonita jornada de ampliação do olhar sobre o Brasil e as vivências cotidianas das nossas diferentes paisagens. Tudo isso mediado por uma das mais antigas tecnologias de conexão humana que é a arte da palavra.
| Próxima parada: Sergipe! |
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